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Compreensões


Por Thiara Bruna


Em meio à uma rotina frenética de organizar os estudos das minhas filhas, planejar suas atividades e buscar o melhor ambiente educacional, sempre me vejo refletindo sobre o que realmente está por trás da formação educacional moderna. Será que compreendemos verdadeiramente as bases filosóficas do que está sendo ensinado às nossas crianças nas escolas e em nossos lares? Aliás, você já parou para pensar que não se ensina ou pouco se fala sobre filosofia de verdade nas escolas, que as ideias dos grandes pensadores como Sócrates e Platão foram ignoradas da grade curricular dos nossos filhos?


Isso apenas reflete uma mudança radical na educação moderna, que deixou de formar pensadores para formar apenas trabalhadores. Ao excluir intelectuais como Sócrates e Platão, o sistema abandona a busca pela verdade, pela razão e pelos valores absolutos, favorecendo o relativismo¹ e a obediência cega a ideologias. Sem filosofia, perde-se a capacidade de pensar com clareza e de viver com propósito. E eles sabem muito bem disso.


Com bem disse G. K. Chesterton :

"A filosofia não serve para nada e é justamente por isso que ela é essencial.”


Temos e devemos nos perguntar: O que realmente molda o intelecto e o espírito de uma criança em um ambiente de aprendizado, e quais são os perigos ocultos em filosofias educacionais adotadas pelas escolas que, à primeira vista, parecem inofensivas? Sabemos reconhecer quando uma proposta pedagógica contradiz a verdade de Deus e mina as bases do ensino cristão?


¹Ensina que não existe verdade absoluta, apenas opiniões pessoais. Mas a fé cristã afirma que Deus é a verdade, e Sua Palavra é eterna e não muda.

A educação não é neutra


A educação nunca é neutra, nem um fim em si mesma. Toda escola e todos nós ensinamos a partir de uma cosmovisão (breve um post aqui sobre isso), e isso muda absolutamente tudo. E salvo raras exceções, como as escolas Cristãs Clássicas, a maioria está imersa no que elas chamam de método construtivista, que molda não apenas o ensino, mas também a forma como a criança vê o mundo, a verdade e a autoridade. Mas, ao contrário do que eles dizem ou que muitos pensam, o construtivismo não é um método de ensino. Nada mais é do que uma filosofia educacional de base anticristã, nascida no solo do evolucionismo e do marxismo. Segundo essa filosofia, o conhecimento não é transmitido, mas "construído" pelo aluno. Vamos entender?


Ora, como esperar que uma criança, ainda sem maturidade para compreender o mundo, forme seu caráter e descubra o conhecimento sozinha e sem guia, sem direção, sem verdade? Criança não descobre sozinha verdades complexas! Pois bem é isso que eles pregam.


Ao contrario a palavra de Deus nos diz: “Ensina a criança no caminho em que deve andar...” (Provérbios 22:6). O verbo é ativo: ensinar, não "mediar descobertas", muito menos ir sozinha.


A autoridade e a hierarquia é algo tão forte que me faz lembrar que Jesus mesmo sendo filho de Deus, seu ministério público só começa por volta dos 30 anos, mostrando o valor da maturidade, do preparo e da autoridade legítima para só depois ensinar (Lucas 3:23).


Já o professor nessa filosofia ele deixa de ser um mestre com autoridade e torna-se um mero mediador. Atenção não se esqueça, quando a figura do mestre, do guia ou da autoridade é rejeitada, estamos ensinando nossos filhos a desconsiderar outras autoridades e pior para não aceitar a Cristo.


“O discípulo não está acima do seu mestre; todo aquele, porém, que for bem instruído será como o seu mestre.” (Lucas 6:40).


Outro problema é que princípios como memorização, repetição e o ensino formal são vistos como desnecessários ou ultrapassados. Agora pensem um pouco: os filhos de vocês estão sendo incentivados a memorizar a tabuada ou estão levando calculadoras para a escola? Estão aprendendo a conjugar verbos ou a gramática está sendo deixada de lado? Estão aprendendo os estados e capitais do nosso país ou dos principais países do mundo? E mais: estão decorando versículos bíblicos ou apenas ouvindo histórias moralistas e superficiais? Estão treinando caligrafia ou já foram direto para o teclado? Estão escrevendo redações com estrutura ou apenas “expressando ideias”? Estão sendo ensinados a ler em voz alta com entonação ou apenas folheando livros ilustrados? Sabem fazer contas de cabeça ou dependem da calculadora até para somar dois números simples? Estão aprendendo lógica e raciocínio ou apenas “resolvendo problemas” sem fundamentos? Tudo isso revela o quanto a formação profunda está sendo trocada por uma aprendizagem superficial, dependente e frágil.


Agora que expliquei alguns dos problemas do construtivismo, vamos entender sua real natureza?


Um breve comentário sobre a origem Questionável de uma Filosofia Sedutora


O construtivismo tem suas raízes em Piaget e Vygotsky, psicólogos que não reconheciam Deus como Criador e se apoiavam em fundamentos marxistas. Sua pedagogia ignora o fato de que Deus criou o homem com habilidades para aprender, raciocinar e resolver problemas em estado de desenvolvimento, que precisam ser guiadas por autoridade, estrutura e verdade. A família é o primeiro ambiente dessa formação, e o professor é um instrumento vital nesse processo, como dom espiritual dado por Deus.


Efésios 4:11 diz: "E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres". 


O escritor John Taylor Gatto, nos traz luz a algo importante:

“A função central das escolas… tem sido separar as crianças dos pais.” (Dumbing Us Down: The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling”).


É evidente que a ausência de educação formal, junto ao encorajamento para que a criança "explore" de maneira autônoma, resulta em um alarmante subdesenvolvimento intelectual, fazendo com que algumas atinjam um verdadeiro "subdesenvolvimento cognitivo". A eliminação de regras e da memorização culminou em uma "crise gramatical, de interpretação textual e de inteligência no mundo".

Um lugar para entretenimento


Tudo isso me preocupa profundamente e me confronta diariamente. Como é possível que continue passando despercebido por nós, pais cristãos? Um dia prestaremos contas a Deus pelos filhos que Ele nos confiou, e por isso não podemos permanecer passivos. Precisamos agir. A escola, que deveria ser um ambiente de formação intelectual e moral, tem se tornado cada vez mais um centro de entretenimento. A escola existe para ensinar e não para entreter. Para diversão, existem o clube, o parque, o passeio no shopping. E claro, ensinar não precisa ser sinônimo de tédio. A aula deve ser viva, envolvente, mas sempre com propósito, verdade e profundidade. O que temos visto, porém, são eventos que apenas distraem: “dia do cabelo maluco”, festas de Halloween, bloquinhos e outras celebrações vazias que ocupam o tempo e esvaziam o conteúdo. São tantas atividades superficiais que roubam o que deveria ser o essencial: o saber, a virtude, a verdade.


Outro dia, minhas filhas chegaram em casa contando que ia ter uma “festa das cores” na escola. Curiosa, perguntei qual era o propósito da atividade, e a resposta me desanimou: “É só para celebrar as cores, mamãe.” Aquilo me pareceu uma brincadeira de mau gosto. Será que é esse o papel da escola? Onde foram parar os projetos que realmente formam? Pasmem: na escola das minhas filhas e de muitos pais que já conversei relataram que não existe feira de ciências. Uma das poucas iniciativas boas que me faziam lembrar de uma escola séria simplesmente desapareceu.


Hoje, muitas escolas nem sequer trabalham mais a redação como prática regular. Simplesmente colocam as crianças para “interpretar textos”, sem qualquer base de gramática, estrutura ou lógica do pensamento. Noutras, os materiais didáticos de História são verdadeiros panfletos ideológicos, recheados de temas como ideologia de gênero, aborto, racismo sob viés marxista, feminismo e mentoria centrada no “eu”. Tudo isso é embalado por nomes atrativos como “disciplina positiva” ou “pedagogia das emoções” (em breve trarei um post sobre isso). Mas a verdade é que esses métodos são aplicados a crianças que sequer formaram seu imaginário como poderiam, então, ter opinião formada sobre temas tão densos? É claro que não estão prontas para esse tipo de exposição. Antes de serem levadas a opinar, elas precisam ser ensinadas a pensar e pensar com clareza requer conteúdo, ordem, beleza e verdade.


 E a chamada “feira literária”? Na prática, tornou-se apenas um evento comercial e venda de livros famosos, mas rasos, como Diário de um Banana, Diário de Pilar, Judy Moody  e dentre outros..(clique aqui para ler um post sobre isso: https://diaadiacomthiara.wixsite.com/diaadiacomthiara/post/formação-pela-leiturapor-que-seus-filhos-precisam-de-bons-livros-e-não-apenas-de-livros), além de ursinhos e adereços que nada têm a ver com o propósito real da leitura. Nada contra os enfeites, mas onde estão as palestras enriquecedoras? As leituras em voz alta? Os livros clássicos? As dramatizações de contos de fadas que alimentam a imaginação e a virtude?


E já observaram que não existe mais livro didático? Só apostilas (isso aqui é um assunto tão extenso que daria um novo post), que de nada acrescentam, com conteúdo raso e superficial com uma mera justificativa de preparar os alunos para o vestibular! Que grande mentira, isso nada mais é do que um sistema para ganhar nosso dinheiro suado, uma parceria das escolas com grandes empresas ou governo!


E a lista de livros paradidáticos deles? Os da minha filha mais velha, honestamente, vão de mal a pior, se eu não tivesse inserido bons livros o que iria ser da formação literária dela? O único que parecia se salvar era um livro de fábulas de Esopo, mas… recontada por Monteiro Lobato. Nada contra o autor e estamos a falar do mais popular nome da literatura infantil brasileira, mas se existe o texto original, por que apresentar à criança uma releitura como primeiro contato com a obra? Por que não apresentar o texto origina, clássico, belo e completo?


Nada disso é por acaso. O que temos visto é resultado direto da adoção do construtivismo pela maioria das escolas brasileiras. Isso é intencional. As escolas seguem uma agenda alinhada com políticas e diretrizes assumidas pelo nosso governo. E aqui nem estou me referindo às escolas públicas esse é um capítulo à parte, que merece sua própria análise.


Mas talvez você esteja se perguntando: “Como saber se a escola do meu filho(a) segue essa filosofia?” A resposta está nos sinais: ela se encaixa em muitos dos pontos que mencionei ao longo deste texto? A ausência de ensino formal, o abandono da memorização, a superficialidade dos conteúdos, o excesso de eventos sem propósito, a lista literária vazia, a figura do professor esvaziada? Então, bem-vindo(a): é bem provável que você esteja dentro de uma escola construtivista, algumas mais sutis, outras mais descaradas. E o que fazer diante disso?


Existe uma boa, bela e verdadeira maneira de educar nossos filhos e de preencher tais lacunas e é isso que vem transformando a realidade da minha casa: A educação Cristã Clássica.

A resposta cristã: recuperar as ferramentas da educação clássica


Ao contrário do que o construtivismo e a educação moderna trouxe, se voltarmos um pouco na história ela nos mostra que a compreensão das fases do desenvolvimento da criança não é uma invenção recente. Civilizações antigas, como os gregos e romanos, já respeitavam e incorporavam essas fases em seus métodos educacionais há milênios. Eles sabiam, por exemplo, que um menino grego não entrava na escola antes dos sete anos, e as mães gregas conheciam o poder da educação oral e as idades apropriadas para cada tipo de aprendizado. Essa sabedoria milenar, que valorizava o estudo das regras e a memorização, foi o padrão até o século XIX, eles ensinavam a luz da educação clássica.


Essa educação reconhece que toda forma de aprendizado molda o caráter. Ela valoriza a instrução formal, a memorização e a repetição como "vetores do conhecimento", pois são faculdades dadas por Deus.... O professor é um "mestre" com autoridade, um dom do Espírito Santo, que organiza e apresenta o saber de forma sistemática. Essa relação de hierarquia, onde alguém que sabe mais ensina a quem sabe menos, é implícita e fundamental para o aprendizado.


Douglas Wilson, em Recovering the Lost Tools of Learning, lembra:


“O ensino clássico cristão parte do princípio de que há uma verdade objetiva, e que essa verdade pode e deve ser ensinada à próxima geração com clareza, ordem e autoridade.”


Essa é a visão que precisamos restaurar. A educação é uma transmissão de verdade, não uma experiência subjetiva. O mestre ensina porque sabe mais. O aluno aprende porque foi criado por Deus com capacidade para receber, repetir, meditar e crescer.


“Para ensinar eficazmente, o mestre deve saber aquilo que ensina e amar essa verdade com intensidade.” — John Milton Gregory.


Foi exatamente isso que comecei a fazer aqui em casa. Percebi que havia muita coisa que precisava ser corrigida e reorientada, e embora o homeschooling ainda não seja uma realidade para mim neste momento e por muitos motivos (e acreditem, não é por falta de desejo!), isso é um capítulo à parte. Mesmo não podendo educar em casa integralmente, comecei a fazer afterschool (em breve um post completo sobre isso), e posso afirmar com toda convicção: foi a melhor decisão que tomei nos últimos dez anos. É no contraturno que eu consigo colocar as coisas no lugar e rever conteúdos, restaurar valores, corrigir rotas e, acima de tudo, formar corações. Tem sido uma bênção na minha casa.


Quero trazer esse tema com ainda mais força aqui no blog e dizer, com alegria e esperança: sim, existe um caminho mesmo que parcial e ele pode transformar a rotina e a formação dos vossos filhos.


Aplicação e Conclusão Prática


Mães e pais, professores e educadores, todos nós, somos exortados a ser vigilantes e intencionais em nossas escolhas educacionais. Nenhum cristão deveria abraçar o construtivismo ou suas vertentes, pois são fundamentalmente anticristãos. Devemos ser vigilantes em nossas escolhas educacionais. O construtivismo e suas ramificações, opõem-se aos princípios cristãos.


Precisamos restaurar a metodologia Cristã Clássica, priorizando a Bíblia e a autoridade do professor. Comece na sua casa, quando seu filho chegar da escola, olhe as lacunas que não estão sendo preenchidas e as faça. Ore a Deus para lhe dar sabedoria e discernimento e muita coragem para ir contra ao que o modernismo nos trouxe. Não se esqueça que a família é o núcleo de socialização e desenvolvimento da criança. Pais e educadores cristãos devem ensinar com firmeza, pois a falta de instrução leva à perdição.


“Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te.” (Deuteronômio 6:6-7).


Nosso objetivo sempre será oferecer uma educação que glorifique a Deus, alicerçada na verdade e na autoridade do ensino. Portanto, nosso caminho é claro: oferecer aos nossos filhos e aos alunos uma educação que honre a Deus, baseada na verdade absoluta, na autoridade do ensino e na valorização das faculdades que Ele nos deu para aprender.


Não tenham medo de assumir a direção. Ensine. Instrui. Exorte. Corrija. Rejeita o construtivismo e qualquer filosofia que negue a verdade absoluta, a autoridade do mestre e de Cristo e do papel insubstituível da família.


Como diz a Escritura: “Meu povo perece por falta de conhecimento”. (Oséias 4:6)


Que o Senhor te acompanhe e te mantenha firme e vigilante nesse caminho. Até o próximo post intencional. Ah, se te edificou e você deseja compartilhar algo comenta aqui, eu vou amar saber disso!


Com Amor e carinho,


Mãe educadora clássica, Mestre em Microbiologia do solo, em vigilância fiel pelo coração das minhas filhas.




 
 
 

Atualizado: 14 de jan.


Por Thiara Bruna


Estava a escrever para vocês quando finalizei o livro de Elisabeth Elliot, Uma Vida com Obediência, ela escreveu algo que me marcou profundamente e que reflete exatamente o que tenho feito na minha maternidade enquanto ainda tenho crianças:


“Uma mãe e um pai que amam seus filhos não podem permitir que eles sigam seus próprios caminhos. Nenhum ser humano caído pode encontrar sem instrução, exemplo e correção a liberdade e alegria divina.” Essa instrução passa, hoje, pelo maior desafio da nossa geração: a onipresença das telas.


Mas nem sempre foi assim por aqui, não porque eu não estivesse sendo mãe, mas porque meu direcionamento estava sem propósito, e eu nem me dava conta disso.


Por muito tempo, eu achei que estava fazendo tudo certo. Desde que minhas filhas eram bebês, procurei cercá-las do que eu, com o coração bem-intencionado, considerava bom. Elas pouco foram expostas a desenhos e músicas seculares ou conteúdos rasos. Sempre procurei buscar o que fosse cristão, bíblico, puro. Quando ainda estavam no berço, colocava para tocarem os DVDs de louvores infantis, tais como: três palavrinhas e da Aline Barros (não estou criticando os músicos, esses louvores infantis são oks), achando que estava cultivando nelas o amor a Deus.


E havia ali, sim, um zelo. Mas era um zelo sem entendimento, pois eu não compreendia que, para o cérebro, um humano “em vídeo” e um “de verdade” são coisas completamente diferentes. A ciência chama isso de “vídeo déficit”: a criança pequena aprende, compreende e memoriza infinitamente melhor quando a informação é transmitida por um humano presente do que por uma tela. Eu seguia o conselho de outros pais e lideres cristãos, pessoas bem-intencionadas, como eu que diziam: “Se for conteúdo cristão, está tudo certo.”


Mas não estava.


Mesmo com pouco tempo de exposição, os efeitos se somaram. E, embora eu sempre tenha feito leitura em voz alta (breve um post por aqui sobre esse tema), dado muitos livros e cultivado um ambiente literário e bíblico em casa, as telas, mesmo com o rótulo de “cristãs”, começaram a cobrar o seu preço.


Foi em 2022 que tudo ficou mais claro.


Naquele ano, eu estava no ápice da minha rotina: cursando doutorado em Microbiologia Agrícola, cuidando da minha empresa, do meu casamento, das meninas, da casa. A vida estava corrida, e como tantas mães, acabei cedendo à tendência cultural da época. Dei a elas celulares, com a promessa interna de que seria apenas por um tempinho, apenas por uma hora, apenas para que eu conseguisse terminar uma tarefa urgente, se viu aqui? Respire.


Mas, como sabemos, o “só um pouquinho” sempre quer mais.


O resultado? Percebi que elas estavam tendo déficit visível de atenção, um pouco de dificuldade em se concentrarem. Desinteresse pela leitura. Atraso na escrita (aqui vem também o ensino construtivista, breve vai ter post aqui sim sobre isso).

Foi ali, ainda no doutorado, que entendi de vez: isso não é para as minhas filhas. Retirei. Com convicção e com fé.


Não foi de uma vez. Primeiro, reduzi. Depois, restringi a uma hora. Mais tarde, a nenhum dia da semana. Hoje, as telas estão completamente ausentes de segunda a sexta-feira.

E toda vez que elas por algum motivo têm contanto com telas eu percebo as meninas dispersas. A leitura travando. O foco longe. Podendo levar dias até reencontrarmos o ritmo do lar.

Não Se Compete com Telas


Isso é a verdade, por mais dura que pareça, é: não dá para competir com as telas.


Estudos confirmam isso, a neurociência mostra que as telas, especialmente as que envolvem vídeos rápidos, luzes intermitentes, barulhos constantes e recompensas imediatas, ativam com força o sistema de recompensa dopaminérgico do cérebro da criança o mesmo sistema envolvido com vícios. Ou seja, quanto mais cedo e mais intensamente a criança é exposta a esse tipo de estímulo, mais seu cérebro aprende a buscar prazer imediato e menos tolera o esforço, o tédio, a espera, a construção lenta da atenção.


O uso excessivo (e até o uso moderado e repetitivo) de telas afeta diretamente áreas do cérebro infantil em desenvolvimento, o córtex parietal, por exemplo, essencial para a imaginação e criatividade. Em vez de criar por dentro, a criança apenas consome por fora.


Cientistas como Christakis (2004), Hutton (2019) e Sigman (2012) alertam: a exposição precoce a telas está ligada a atrasos na linguagem, dificuldades de atenção e prejuízos no desenvolvimento emocional.


Segundo estudos revisados por The Lancet Child & Adolescent Health (2019), crianças de 2 a 5 anos que ultrapassam 1 hora de tela por dia têm desempenho significativamente menor em testes de linguagem, memória e atenção.


O Dr. Dimitri Christakis, um dos maiores especialistas do mundo nesse campo, afirma:“As experiências da primeira infância moldam a arquitetura do cérebro. Telas são experiências pobres e hipersaturadas. Elas não ensinam atenção, elas ensinam dispersão.”


Charlotte Mason(recomendo fortemente sua série de livros “Educação no lar”), já dizia com sabedoria: “A mente da criança precisa ser alimentada com ideias vivas, não com entretenimento vazio.”


E não é só sobre o que elas assistem, mas sobre o que deixam de viver.

Cérebro distraído não se aprofunda


Imagine que a atenção da criança é como um músculo: precisa de treino, de repetição, de tempo. Quando ela pula de vídeo em vídeo, de estímulo em estímulo, esse músculo enfraquece. O cérebro vai se moldando para reagir, não para pensar. Para apenas consumir, não para imaginar.


A região do córtex pré-frontal, que ajuda a criança a planejar, organizar, resistir à distração e manter o foco, é uma das mais afetadas. Ela se desenvolve lentamente, até por volta dos 20 anos, e precisa de um ambiente rico em conversas, natureza, histórias e vínculos reais para florescer.


Veja abaixo algumas áreas afetadas:


Mas as telas ocupam esse lugar e não com presença, mas com bagunça.

E por que isso importa?


Porque a infância é o campo fértil divino. É agora que os hábitos se formam. É agora que a imaginação é cultivada ou esmagada. É agora que a alma aprende a amar o que é belo ou se consome do que é fútil. E as telas, ainda que por distração e para assistir desenhos bíblicos, se for em idade inadequada podem roubar esse terreno sagrado sem que percebamos.


Mas ainda há tempo.


Aqui em casa, com a redução drástica do uso das telas, as meninas já tem idade para usar com moderação, o resultado é que floresceram de novo. A leitura voltou a ser prazer. A atenção, melhorou. E o mais bonito: as conversas em família e momentos juntos voltaram a brilhar.


Retomando o Campo Fértil Divino

A infância é o campo fértil divino onde os hábitos se formam. Para que nossos filhos floresçam, eles precisam de generosidade e gestos humanos, e não de dispositivos predadores.

Seguindo os ensinamentos que aprendi e os dados da literatura científica, estabeleci regras fundamentais aqui em casa para proteger esse terreno sagrado:


1. Nada de telas antes dos 6 anos: Crianças pequenas precisam de livros, interação e brincadeiras reais para construir o cérebro.

2. Quartos são santuários: As telas devem ficar fora do quarto, pois sua presença triplica o risco de distúrbios do sono.

3. Limite rigoroso: Após os 6 anos, o ideal é manter o uso entre 30 a 60 minutos por dia, no máximo (aqui em casa deixo elas usarem aos sábados e domingos).

4. Uma coisa de cada vez: Nada de telas durante refeições ou deveres; o multitasking (fazer várias coisas ao mesmo tempo) destrói a capacidade de memorização.


Não dá para competir com as telas, mas também não precisamos competir. Menos telas significa mais vida. Quando retiramos o digital, o "vazio" permite que a criança volte a sonhar, criar e agir, em vez de apenas reagir. Ao dizer "aqui não", estamos abrindo as portas para a vida abundante que Deus deseja para nossas filhos.

Para refletir no coração e na prática

Estudos e leituras citadas:

  • Elisabeth Elliot, Uma Vida com Obediência.

  • Christakis, D. A. (2004). Early Television Exposure and Subsequent Attentional Problems

  • Charlotte Mason, Home Education.

  • Hutton, J. S., Dudley, J., Horowitz-Kraus, T., DeWitt, T., & Holland, S. K. (2019). Associations between screen-based media use and brain white matter integrity in preschool-aged children. JAMA Pediatrics, 173(3), 244–250.

  • World Health Organization. (2019). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age.

  • Twenge, J. M., & Campbell, W. K. (2018). Associations between screen time and lower psychological well-being among children and adolescents: Evidence from a population-based study. Preventive Medicine Reports, 12, 271–283.

  • Sigman, A. (2012). Time for a view on screen time. Archives of Disease in Childhood, 97(11), 935–942.


Que nosso Deus te dê graça e sabedoria para trilhar nessa linda missão que é ser mãe e pai. Com fé , olhar vigilante e esperança viva. Até o próximo post INTENCIONAL.


Com carinho,



Mãe educadora clássica, Engenheira Agrônoma e Mestre em Microbiologia do solo.


Ah, se te edificou não se esquece, deixa seu comentário aqui. Beijos.

 
 
 

Por Thiara Bruna


Outro dia, enquanto organizava as leituras da semana aqui em casa, percebi como é fácil cair na armadilha moderna de achar que qualquer leitura serve, desde que a criança esteja “com um livro na mão”. Quantas vezes escutamos por aí: “Ah, pelo menos ele está lendo!”. Mas será que isso basta?


Como mãe educadora, sei que não. A leitura não é um fim em si mesma. Ela é um caminho. E como todo caminho, pode levar para a luz… ou para a escuridão.


Como bem escreveu C.S. Lewis:

"A tarefa da educação moderna não é cortar as florestas, mas irrigar desertos."

Em tempos de corações secos e imaginações adormecidas, cada bom livro oferecido com intenção é uma gota de vida sobre o solo da alma.


Duas coleções extremamente populares : Diário de um Banana, Diário de Pilar  têm sido indicadas até mesmo por escolas. São vistas como porta de entrada para o hábito da leitura. Mas precisamos perguntar com coragem: o que exatamente essas histórias estão ensinando aos nossos filhos?

O que está em jogo quando deixamos “ler por ler”?


Em Diário de um Banana, encontramos um protagonista que ridiculariza a autoridade, mente, manipula e segue seu caminho sem enfrentar grandes consequências. A “graça” da narrativa reside na sua tolice. O problema não está no humor, mas no que está sendo normalizado. O personagem principal, Greg, muitas vezes se mostra desonesto, egoísta e desrespeitoso e nunca parece aprender com suas ações. A “moral da história”, na maioria das vezes, é inexistente. Ou pior: a mensagem que se passa é que ser tolo e inconsequente é algo engraçado e aceitável. Quando o riso se baseia em erros não corrigidos, estamos moldando sentimentos, não apenas proporcionando entretenimento.


Já em Diário de Pilar, o problema é mais sutil: sob a aparência de cultura e curiosidade, as crianças são introduzidas a mitologias pagãs, espiritualidades estranhas, sem nenhum filtro. Mas por trás dessa proposta, há uma exposição precoce a cosmovisões contrárias à fé cristã tais como: politeísmo e relativismo moral. Pilar é apresentada como curiosa e corajosa, mas o que sua curiosidade explora são caminhos religiosos, históricos e simbólicos (breve um post aqui sobre como entender sobre símbolos, mitos e arquétipos) que afastam a criança da verdade do Evangelho e introduzem o encantamento por ídolos antigos, sob o pretexto de “conhecimento”. A personagem explora o mundo..., mas sem nenhuma âncora. E onde não há raiz, qualquer vento arrasta. Essa série de livros são modinhas contemporâneas bem embaladas, ilustradas e vendidas como empoderamento e estímulo à leitura, mas com pouca ou nenhuma profundidade literária, moral ou estética.


O que essas duas séries possuem em comum? Ambas seguem a lógica de “literatura fast food”: são consumíveis, fáceis, coloridas, e não exigem esforço da imaginação ou reflexão moral. Como disse C.S. Lewis, “uma criança que lê bons livros, lerá qualquer livro; uma que só lê livros ruins, provavelmente não lerá bons livros depois”.


Esses livros não são neutros. Nenhum livro é. Toda história forma. Toda história molda, toda leitura semeia, ainda que de imediato não percebamos.


G.K. Chesterton dizia com sabedoria:

"Contos de fadas não dizem às crianças que dragões existem. As crianças já sabem que dragões existem. Contos de fadas dizem que dragões podem ser vencidos."


Essa é a função das histórias verdadeiras: mostrar que o mal pode ser enfrentado, que o bem é possível e que há redenção mesmo quando as trevas parecem dominar.

O que está em jogo?


Ao entregar à criança esse tipo de literatura, mesmo que com boas intenções, plantamos uma semente. A da zombaria, do desinteresse pelo bem, da relativização do mal, da adoração a múltiplos deuses ou da aceitação de valores fluidos. E essa semente cresce. Em um mundo que já bombardeia os pequenos com confusão moral e desordem emocional, precisamos ser ainda mais criteriosos.


Ler, sim. Mas ler o que enobrece, o que é bom, o que é verdadeiro.

Resumo e perguntas reflexivas : Literatura Infantil Popular x Formação Cristã Clássica.
Resumo e perguntas reflexivas : Literatura Infantil Popular x Formação Cristã Clássica.

O que oferecer, então?


Não basta ler. É preciso ler o que forma. O que nutre (em breve um post aqui sobre imaginário infantil). O que aponta para o bem, para o belo e para o verdadeiro. Ao invés de mitologias vazias, ofereça J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, George Macdonald . Ao invés de piadas sem arrependimento, ofereça E.B. White, com Charlotte uma aranha que ensina sacrifício e amizade real.  


Caso você me pergunte quais livros oferecer aos seus filhos, eu poderia sugerir e até irei oferecer a seguir alguns títulos. No entanto, meu conselho é que comece pelos clássicos. Encha sua casa com essas obras atemporais e, em breve, você testemunhará a mágica da fluência na leitura florescer.


Veja alguns exemplos que tenho usado aqui com minhas filhas, e que têm florescido frutos visíveis no coração e no comportamento delas:


  • As Crônicas de Nárnia — para quem busca aventura e fantasia que apontam para Cristo.

  • O Peregrino, de John Bunyan — para apresentar a jornada cristã com clareza e simbolismo.

  • O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett — para ensinar sobre cura, esperança e renovação.

  • Robinson Crusoé, de Daniel Defoe — uma história de fé e sobrevivência sob a providência divina.

  • Heidi, de Johanna Spyri — um hino à gratidão, à fé e à beleza da criação.

  • A Teia de Charlotte, de E.B. White — uma fábula sobre amizade, sacrifício e propósito.

  • A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl — lições morais claras em uma história cativante.

  • A Princesa e o Goblin, de George MacDonald — fantasia cristã com verdades eternas.

  • O Hobbit, de J.R.R. Tolkien — mitologia com propósito, coragem e chamado à virtude.


Esses livros não apenas entretêm. Eles formam caráter. Eles ensinam sobre o mundo, sobre o mal, sobre o bem  e sobre o Deus que reina sobre tudo isso.


O que está plantado na imaginação vai florescer no coração


A leitura é uma das maiores ferramentas que temos para moldar o interior dos nossos filhos. Não apenas seus pensamentos, mas seus amores. Suas convicções. Seus afetos. E isso exige de nós, mães, uma vigilância amorosa, uma intenção constante.


Sei que nem sempre é fácil. Sei que as listas escolares nem sempre ajudam, a correria do dia-a-dia, o trabalho, as infinitas atividades nos castigam e desviam nossos olhares. Mas você pode com carinho, firmeza e visão oferecer algo melhor. Você pode ser aquela que filtra, que propõe, que direciona. E assim, com livros bons nas mãos e olhos atentos a verdade absoluta, formar leitores que glorificam a Deus.


Charlotte Mason, com sua sensibilidade única, nos lembra:

"A imaginação é o poder da alma que percebe, idealiza e encarna o bem. Se você nutrir a imaginação com o que é belo e verdadeiro, ela crescerá como um jardim cultivado."


E é exatamente isso que buscamos quando escolhemos com zelo os livros que colocamos diante dos nossos filhos.


Que a graça do Senhor te acompanhe nessa missão tão linda quanto desafiadora. Até o próximo post intencional.


Com carinho,



Mãe educadora clássica, Mestre em Microbiologia do solo e leitora vigilante.

 
 
 
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